Seres híbridos medievais:

a revelação figural das harpias na Commedia de Dante

Palavras-chave: Harpias, Commedia, Presença

Resumo

O imaginário medieval é cheio de elementos mitológicos antigos que foram agregados pelo pensamento, seja devido à resistência, seja devido ao movimento de herança atrelado às suas presenças. A Commedia de Dante possui presentificações do passado atrelados à imagem mental e, portanto, presentes no imaginário medieval. A presença alegórica dos seres híbridos ou guardiões do Inferno, primeira parte da obra, é realizada de acordo com a intertextualidade dos poetas latinos que foram autorictas de Dante. Porém, o poeta também estava inserido no contexto em que os animais e híbridos remetiam aos vestígios de presenças divinas associadas ao comportamento humano, enquanto sinais da sua figuração no pós-morte ou da forma como a justiça divina se organizava. O intuito deste artigo é investigar a revelação figural das harpias presentificadas no segundo giro do sétimo círculo do inferno descrito na Commedia: Inferno, enquanto punidoras das almas dos suicidas. A análise se concentra na presença dos poetas antigos enquanto pré-figuração, na figuração poética de Dante e no imaginário medieval, como é o caso de suas presenças em esculturas e em bestiários.

Biografia do Autor

Daniel Lula Costa, Universidade Federal de Santa Catarina

Doutor em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina sob orientação da profa. Dra. Aline Dias da Silveira, com estágio de doutorado sanduíche na Università di Bologna sob a tutoria do prof. Dr. Giuseppe Ledda. Mestre em História pela Universidade Estadual de Maringá. Atua nos seguintes laboratórios de pesquisa: Meridianum-UFSC (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Medievais) e LERR-UEM (Laboratório de Estudos em Religiões e Religiosidades da UEM). Bolsista Fapesc.

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Publicado
2020-06-16
Como Citar
COSTA, D. L. Seres híbridos medievais:. Sæculum – Revista de História, v. 25, n. 42, p. 207-221, 16 jun. 2020.
Seção
Artigos