Disposições políticas no espiritismo brasileiro:

da "neutralidade" conservadora à aspiração socialista

Palavras-chave: Espiritismo, Política, Socialismo

Resumo

Neste artigo é examinada a conformação de um discurso de neutralidade, isenção e alheamento político no espiritismo brasileiro, acomodando-o de modo conservador à sociedade capitalista, bem como a produção de um espiritismo à esquerda, minoritário, que abriga ideários socialistas. Embora seja dominante, a disposição conservadora conviveu e confrontou-se com discursos dissonantes de viés progressista, geralmente discretos e moderados, mas, por vezes, expressos em termos mais engajados e radicalizados. Os termos do discurso de neutralidade e alheamento à política incluem a ojeriza às “paixões políticas”, uma concepção individualista e reducionista de moral consagrada numa fórmula despolitizada de “reforma íntima” e a dicotomia sagrado/profano como grade de leitura de mundo. A partir das lentes da classe média, opera ainda a seletividade ideológica quanto àquilo que é aceitável ou não em termos de discurso espírita sobre questões sociais. Já a produção de um discurso espírita à esquerda pode ser entendida sobretudo a partir das áreas de afinidade eletiva ou correspondência estrutural entre o cristianismo e o socialismo, bem como pela origem do espiritismo na França no bojo das relações históricas entre socialistas utópicos e o movimento espiritualista. Destacamos, por fim, o Movimento Universitário Espírita de 1967-1974, pelo claro rompimento com a dicotomia sagrado/profano e consequente adensamento político do ideário socialista no âmbito do espiritismo brasileiro.

Biografia do Autor

Sinuê Neckel Miguel, Universidade Estadual da Paraíba

Professor substituto de História na UEPB. Possui bacharelado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2007), mestrado em História pela Universidade Estadual de Campinas (2012) e doutorado em Ciências Sociais pela mesma universidade (2017), tendo realizado estágio de doutorado “sanduíche” pelo acordo CAPES/COFECUB junto ao GTM, CRESPPA, Université Paris 8 Vincennes-Saint-Denis e Université Paris Nanterre. Vem atuando principalmente nos seguintes temas: espiritismo, política, socialismo, autogestão e Iugoslávia.

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Publicado
2020-06-16
Como Citar
MIGUEL, S. N. Disposições políticas no espiritismo brasileiro:. Sæculum – Revista de História, v. 25, n. 42, p. 86-104, 16 jun. 2020.
Seção
Artigos