Corpo, vida e mundo como territórios de dominação em Uma mulher no limiar do tempo: uma crítica ecofeminista animalista para construção de novos mundos possíveis
DOI:
https://doi.org/10.22478/ufpb.1887-8214.2026v41n1.78816Palavras-chave:
Ecofeminismo, Anti-especismo, CapitalismoResumo
O presente artigo realiza uma análise ecofeminista animalista do romance Uma mulher no limiar do tempo, de Marge Piercy, investigando de que maneira a narrativa representa corpo, vida e mundo como territórios articulados de dominação. Parte-se da hipótese de que a obra constrói uma crítica estrutural às racionalidades patriarcais, capitalistas, coloniais e especistas responsáveis pela transformação da vida em objeto de controle, exploração e descarte. O estudo adota abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica e interpretativa, fundamentada principalmente no ecofeminismo, no ecofeminismo animalista e nas teorias decoloniais, com destaque para Karen J. Warren, Carol J. Adams, Val Plumwood, Maria Mies, Vandana Shiva e Malcom Ferdinand. Argumenta-se que o romance evidencia a interdependência entre a opressão das mulheres, a exploração animal e a devastação ecológica, revelando que o capitalismo patriarcal opera mediante a objetificação de corpos considerados disponíveis à apropriação. A trajetória de Connie Ramos demonstra como medicalização, racialização, violência psiquiátrica e animalização constituem tecnologias convergentes de controle biopolítico. Paralelamente, a própria estrutura narrativa do romance, marcada pela fragmentação temporal, pela ambiguidade ontológica e pela instabilidade perceptiva da protagonista, transforma o “limiar” em procedimento literário de questionamento da racionalidade moderna. Em contraposição ao presente opressivo de Connie, Mattapoisett apresenta a possibilidade de reorganização comunitária fundada na interdependência ecológica, no cuidado coletivo e na ruptura parcial com hierarquias de gênero e propriedade. Contudo, o artigo sustenta criticamente que a utopia de Piercy permanece limitada por não superar integralmente o antropocentrismo, uma vez que a instrumentalização animal continua parcialmente naturalizada. Conclui-se que o romance projeta o futuro como campo político em disputa, no qual a construção de outros mundos possíveis depende da superação simultânea do patriarcado, do capitalismo, da colonialidade e do especismo.

