Vol. 22, n. 1, 2020

2019-10-01
Na antiguidade clássica greco-romana, nada há expresso que justifique uma retórica literária ou uma literatura retórica. Se para a retórica, por meio de seus gêneros discursivos, a matéria é bem desenvolvida em termos de manuais, para a literatura eles escasseiam. O próprio termo literatura pode ser visto como anacrônico. Aristóteles já se debruçava sobre o problema de uma certa arte inominada (ἀνώνυμος, Poética, 1447b9). Ainda que a retórica gozasse de reputação não só entre os gregos, mas também entre os romanos, é forçoso admitir também que a literatura já era objeto de crítica. A República platônica, bem como a Poética e a Política aristotélicas, são exemplos de uma consciência literária bem desenvolvida no tocante ao seu objeto. A complexidade dessa crítica reflete-se sobretudo no termo utilizado pelos gregos ποίησις, que cobre não só a produção do que compreendemos hodiernamente por poesia, mas também as demais artes como a pintura, por exemplo. Parece não haver uma fronteira bem delimitada nem sequer entre as artes, já que o próprio Aristóteles utiliza, em suas comparações com os poetas, os pintores; nem sequer entre os tipos de poesia, não obstante as tentativas de delimitação que foram levadas a cabo pelos filósofos acima. Por outro lado, é inegável que citações de poetas são encontradas na Retórica de Aristóteles de forma abundante. O diálogo entre a duas esferas já se fazia por meio dos exemplos citados. Todavia, talvez seja no período da retórica romana, com Quintiliano, que certa consciência entre as fronteiras móveis da literatura e da retórica tenha sido pela primeira vez evidenciada de forma concisa. Em seu livro X, da Instituição Oratória, ele nos fornece a opinião de Teofrasto, de que “os oradores se valem muito da lição dos poetas” [Plurimum dicit confere Theophrastus lectionem poetarum, 27], “e a partir deles busca-se a inspiração nas coisas, a elevação nas palavras, todo o movimento nas afecções e a conveniência nas personagens” [... ab his in rebus spiritus et in verbis sublimites et in adfectibus motus omnis et in personis decor petitur, 27]. Não deixa ele, porém, de sugerir certa prudência ao orador, já que “os poetas não devem ser seguidos pelo orador em tudo, nem na liberdade das palavras e nem no excesso das figuras” [non per omnia poetas esse oratori sequendos nec libertate verborum nec licentia figurarum, 28]. Claro está que o problema se coloca na perspectiva da fronteira entre a Literatura e a Retórica. Fronteira que se quer móvel, sem delimitação precisa, cambiante. Diante deste panorama, propomos como dossiê o tema “Literatura e Retórica na Antiguidade Clássica”, com o intuito de promover ainda mais o encontro entre essas duas regiões. Por último, exortamos os colaboradores para que entendam o “e” copulativo do nome do dossiê como lugar por excelência entre essas demarcações. Organizadores: Marco Valério Colonnelli (PPGL/UFPB) e Ticiano Curvelo Estrela de Lacerda (UFRJ) Prazo para submissão de artigos: 03 de fevereiro de 2020