Por uma ontologia da fonte:
vestígio e artefato na Operação Historiográfica de Michel de Certeau
DOI:
https://doi.org/10.22478/ufpb.2317-6725.2025v30n53.76489Palavras-chave:
Palavras-chave: Fonte Histórica; Operação Historiográfica; Linguistic Turn; Hermenêutica; Michel de Certeau; Epistemologia da História., Fonte Histórica, Operação HistoriográficaResumo
Resumo: Este artigo investiga a reconfiguração epistemológica do conceito de fonte histórica como um dos eixos centrais da resposta da historiografia ao desafio cético do linguistic turn. Sustenta-se a tese de que a crise das décadas de 1970 e 1980, que interpelou o estatuto científico da história ao enfatizar seu caráter narrativo e retórico, foi enfrentada por meio de uma assimilação de fundo ontológico-operatório, que redimensionou a própria natureza da fonte histórica. Essa virada consistiu em refundar a compreensão do documento histórico, articulando reflexões da tradição hermenêutica alemã – de Johann Gustav Droysen a Wilhelm Dilthey, Martin Heidegger e Hans-Georg Gadamer – e francesa, especialmente a contribuição de Paul Ricoeur. O percurso analítico demonstra que a fonte foi progressivamente redefinida em sua dupla natureza irredutível: como vestígio, índice material de um passado real e alteridade que impõe um limite ético à interpretação; e como artefato linguístico, construção de significado já mediada pela linguagem e pela intencionalidade, que demanda uma operação interpretativa no presente. A hipótese central é que a síntese dessa dupla natureza foi incorporada na "operação historiográfica" de Michel de Certeau (1975), que erigiu o repensar da fonte como gesto fundador de uma prática ética e metodológica com a alteridade do passado. Nessa operação, o fazer histórico é concebido como uma negociação entre o presente do historiador e o passado como outro, transformando a distância temporal de um abismo intransponível no próprio elo de inteligibilidade. Conclui-se que, longe de ratificar o relativismo cético, a crítica do giro retórico permitiu à história reinventar-se como uma ciência da interpretação, cuja cientificidade reside no rigor da mediação entre o vestígio da experiência passada e a construção narrativa.
Downloads
Referências
AMARAL, Maria Nazaré de Camargo Pacheco. Dilthey, Hermenêutica da vida e universalidade pedagógica. Trans/Form/Ação, Marília, v. 35, n. 1, p. 89-114, Jan./Abril, 2012.
ARANHA, Gervácio Batista. A escrita da história entre a mímesis e o efeito de real: Paul Ricoeur e a terceira via na crise do paradigma narrativista. São Paulo: Edições Loyola, 2023.
BARROS, José D'Assunção. Tempo e narrativa em Paul Ricoeur: considerações sobre o círculo hermenêutico. Fênix: Revista de História e Estudos Culturais Jan./ Fev./ Março/ Abr. de 2012 Vol. 9 Ano IX nº 1 ISSN: 1807-6971
BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BOURDÉ, Guy.; MARTIN, Hervé. As escolas históricas. Lisboa: Europa-América, 1990.
BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a revolução francesa da historiografia. São Paulo: Unesp, 1991.
CERTEAU, Michel. de. A escrita da história. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.
CERTEAU, Michel de. A operação histórica. In: LE GOFF, Ja.; NORA, P. (Org.). História: novos problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. p. 17-48.
CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre certezas e inquietudes. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002.
CHARTIER, Roger. El presente del pasado: escritura de la história, história de lo escrito. Universidade Iberoamericana. México.
CHIZZOTTI, Antônio. Pesquisa em ciências humanas e sociais. 4. ed. São paulo: Cortez, 2000.
DERRIDA, Jacques. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 1973.
DILTHEY, Wilhelm. A construção do mundo histórico nas ciências humanas. São Paulo: Unesp, 2010.
DOSSE, François. A história à prova do tempo: da história em migalhas ao resgate do sentido. São Paulo: Unesp, 2001.
DROYSEN, Johann Gustav. Manual de Teoria da História. Tradução, prefácio e notas de Sérgio da Mata. Petrópolis: Vozes, 2009.
FERREIRA, Leonardo Magalde. Hermenêutica contemporânea: entre o texto e a vida. Kínesis, Vol. XI, n° 27 (Ed. Especial), abril 2019, p.76-98.
GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006.
GENTIL, Hélio Salle. Prefácio. In: RICOEUR, P. Tempo e narrativa. Tomo I. São Paulo: Martins Fontes, 2010. p. IX-XV.
GIARD, Luce. História de uma pesquisa. In: CERTEAU, M. de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 7-32.
GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
GINZBURG, Carlo. Relações de força: história, retórica, prova. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Parte I. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2005.
KOSELLECK, Reinhart. Estratos do tempo: estudos sobre história. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC-Rio, 2014.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC-Rio, 2006.
KOSELLECK, Reinhart. Uma história dos conceitos: problemas teóricos e práticos. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p. 134-146, 1992.
LANGLOIS, Charles-Victor; SEIGNOBOS, Charles. Introdução aos estudos históricos. Lisboa: Europa-América, 1946.
LE GOFF, Jacques. Prefácio. In: LE GOFF, Jacques.; NORA, Pierre. (Org.). História: novos problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. p. 7-16.
MARTINS, Estevão Rezende. O historicismo alemão e a noção de ciências do espírito. Trans/Form/Ação, Marília, v. 30, n. 2, p. 117-134, 2007.
PROST, Antoine. Doze lições sobre a história. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
REVEL, Jacques. Michel de Certeau historiador. O plural das ciências do homem. In: MOTTA, M. (Org.). Michel de Certeau: travessias. Florianópolis: UFSC, 2010. p. 139-156.
RICOEUR, Paul. Do Texto à Ação: Ensaios de Hermenêutica II. Porto: Rés Editora, 1986.
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Unicamp, 2007.
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Tomo I. São Paulo: Martins Fontes, 2010. .
RÜSEN, Jörn. História viva: teoria da história III: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Editora UnB, 2007.
SCHOLTZ, Gunter. O historicismo como desafio ético e epistemológico. História da Historiografia, Ouro Preto, n. 6, p. 24-41, 2011.
SCHOLTZ, Gunter. As origens das ciências do espírito. Trans/Form/Ação, Marília, v. 11, p. 317-332, 1988.
STONE, Lawrence. O ressurgimento da narrativa: reflexões sobre uma nova velha história. Revista de História, São Paulo, v. 115, p. 143-172, 1979.
VEYNE, Paul. Como se escreve a história. 4. ed. Brasília: Editora UnB, 2008.
WHITE, Hayden. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: Editora USP, 2008. (Original: 1973).
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 IORDAN QUEIROZ GOMES

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.
A revista Sæculum permite aos autores a manutenção dos direitos autorais pelo seu trabalho, no entanto eles devem repassar direitos de primeira publicação ao periódico.





