O corpo negro como lócus da negação da identidade

  • Érica Fernandes Alves UEM
  • Geniane Diamante Ferreira FERREIRA UFM
Palavras-chave: Corpo, Negro, Mulher, Identidade, Negação

Resumo

O corpo negro sempre foi, desde o momento de encontro do conquistador e dos povos não-brancos, e ainda é a base para as inserções do racismo e discriminação na sociedade. Em se tratando do corpo negro feminino, salienta-se que ele produz o discurso da sensualização, do desejo e da libido e observamos que a aceitação dele como algo indiferente ao caráter das mulheres ainda é um impasse para que as relações humanas sejam igualitárias. Desse modo, a sociedade, encabeçada pela mídia e indústrias de cosméticos e de moda, transmite aos indivíduos uma dura regra que exclui, diversas vezes, as características dos corpos negros como um padrão de beleza: os cabelos encaracolados são rotulados como ‘ruins’ ou ‘rebeldes’, estando sempre sujeitos aos alisamentos e clareamentos; os traços negros devem ser suavizados pela maquiagem que suaviza os narizes alargados e lábios muito volumosos; a pele negra é branqueada pela maquiagem que insiste em esconder o escuro e valorizar o tom claro, a moda destinada ao público negro, muitas vezes, é imbuída da ideologia do exótico, do falso multicultural. Tudo isso faz com que o negro tenha dificuldades em aceitar sua negritude, a ponto de buscar incessantemente o branqueamento para que possa pertencer à sociedade que prega, ainda hoje, a eugenia. Assim sendo, este trabalho tem por objetivo analisar dois poemas em língua inglesa que discutem a questão da imposição do branqueamento e o apagamento das características dos corpos negros como meio de aceitação na sociedade, a saber: “Kinky Hair Blues”, de Una Marson e “if your complexion is a mess”, de Harryette Mullen. A metodologia se baseia na discussão e aplicação das teorias sobre racismo, discriminação e identidade desenvolvidas por Hooks, Davies, Hall, entre outros. Os resultados revelam que o corpo se figura como lócus da construção da identidade do negro, porém, ele deve negar sua cor e sua identidade para que tenha condições de pertencer à sociedade em que está inserido.

Biografia do Autor

Érica Fernandes Alves, UEM
Doutora em Letras pela Universidade Estadual de Maringá. Professora adjunta do DLM/UEM.
Geniane Diamante Ferreira FERREIRA, UFM
Doutoranda em Letras pela Universidade Estadual de Maringá. Professora assistente do DLM/UEM

Referências

BAUMAN, Z. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

BHABHA, H. K. The Location of culture. London: Routledge, 1998.

BRAH, A. Cartographies of diaspora. London: Routledge, 2005.

DAVIS. A. Mulheres, raça e classe. Trad. Heci Regina Candiani. 1ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2016. DAVIS, A. Mulheres, cultura e política. 1ª ed. São Paulo: Boitempo, 2017.

FIGUEIREDO, E. Construção de identidades pós-coloniais na literatura antilhana. Niterói: Eduff, 1998.

HALL, S. Da diáspora – identidades e mediações. Org. Liv Sovik. Trad. Adelaine La Guardia Resende et al. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. de Thomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

HOOKS, B. Feminist theory: from margin to center. South end press: 1984.

HOOKS, B. Ain’t I a woman – black women and feminism. Tradução livre para a Plataforma Gueto. Plataforma Gueto, 2014. Disponível em: https://plataformagueto.files.wordpress.com/2014/12/nc3a3o-sou-eu-uma-mulher_traduzido.pdf. Acesso em: 15 ago. 2018.

LABBÉ, J. Body. In: BEAULIEU. E. A. (ed) Writing african american women: an encyclopedia of literature by and about women of color. Westport: Greenwood Press, 2006.

MARSON, U. Kinky hair blues. In: BONNICI, Thomas. Poetry of the nineteenth and twentieth centuries: anthology of poems in English with introductory notes. Maringá: Massoni, 2004.

MULLEN, H. Muse & drudge. Philadelphia: Singing Horse Press, 1995.

OLSON, D. C. Beauty. In: BEAULIEU. E. A. (ed) Writing african american women: an encyclopedia of literature by and about women of color. Westport: Greenwood Press, 2006.

STEINFELD, S. The Social significance of blues music. 2016. Disponível em: https://tesi.luiss.it/17909/1/072752_STEINFELD_SUSANNA.pdf Acesso em: 06 ago. 2018.

Publicado
2019-01-25
Como Citar
ALVES, ÉRICA F.; FERREIRA, G. D. F. O corpo negro como lócus da negação da identidade. Revista Graphos, v. 20, n. 2, p. 175-189, 25 jan. 2019.
Seção
Artigos do Dossiê