Contribuições de Michel de Certeau para a História Cultural das Religiões
DOI:
https://doi.org/10.22478/ufpb.2317-6725.2025v30n53.76253Palavras-chave:
Michel de Certeau, historiografia, História Cultural das religiões, mística, culturas ordináriasResumo
Este artigo examina a contribuição de Michel de Certeau à História Cultural das Religiões, com ênfase na noção de operação historiográfica e em suas implicações epistemológicas. Partindo da constatação de que a escrita da história implica uma dupla distância — temporal e epistemológica —, o texto situa o pensador no contexto da virada teórica francesa dos anos 1960, momento em que a disciplina histórica buscava equilibrar rigor científico e dimensão literária. O objetivo central é compreender como o autor, a partir de uma posição marginal no campo acadêmico, elaborou uma crítica às pretensões de neutralidade do discurso histórico e propôs uma antropologia do crer. O recorte teórico-metodológico articula análise historiográfica, história das religiões e diálogo com a psicanálise. Ao deslocar a atenção para a linguagem, as práticas ordinárias e a mística, Michel de Certeau evidencia que a produção histórica é sempre atravessada por ideologias e condicionada por categorias próprias do presente. Nesse sentido, a mística é concebida simultaneamente como ciência nova, ciência experimental e ciência da enunciação, revelando-se um campo privilegiado para pensar a relação entre experiência subjetiva, ausência do divino e práticas discursivas. O artigo conclui destacando que a história das religiões deve ser compreendida menos como estudo das instituições religiosas e mais como análise da crença enquanto prática social, marcada por resistências, apropriações e usos cotidianos da fé. Tal perspectiva rompe com a dicotomia entre religião erudita e popular, conferindo centralidade às culturas ordinárias. Dessa forma, a obra de Michel de Certeau permanece atual ao propor uma reflexão crítica sobre os limites e as possibilidades da escrita da história, apontando a indissociabilidade entre religião, política e práticas do cotidiano.
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