A monogamia mata mulheres

reflexões a partir do caso de Julieta Hernández

Autores

  • Dardo Lorenzo Bornia Junior Instituto Federal do Rio Grande do Sul

DOI:

https://doi.org/10.22478/ufpb.2317-6725.2024v30n51.73045

Palavras-chave:

Família, Misoginia, Anticolonialidade, Monogamia

Resumo

Neste artigo discorro sobre a relação entre monogamia e misoginia instigado pelo homicídio de Julieta Hernández, artista de rua venezuelana conhecida como Palhaça Miss Jujuba, que vivia no Brasil e viajava de bicicleta pelo país, vindo a ser assassinada por um casal do interior do Amazonas no final de 2023. A partir deste caso, faço reflexões sobre o caráter violento da família monogâmica e cis-heteronormativa em relação às mulheres, vítimas do feminicídio, bem como em relação às pessoas sexualmente dissidentes e subalternizadas. Para tanto, apresento sucintamente a história de Julieta como artista no Brasil e o contexto de sua morte. Na sequência, discuto as imbricações entre família burguesa/colonial e monogamia, alicerçadas pela pedagogia afetiva do amor romântico e do ciúme. Por fim, trago as críticas contra-hegemônicas, não monogâmicas e anticoloniais a esse modelo, além do exemplo de Julieta como inspiração contra as normatividades que violentam e matam mulheres.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

ARIÈS, Philippe. O amor no casamento. In: ARIÈS, Philippe; BÉJIN, André (orgs). Sexualidades ocidentais. São Paulo: Editora Brasiliense, 1982.

BANDEIRA, Lourdes Maria. Violência, gênero e poder: múltiplas faces. In: STEVENS, Cristina et al (orgs.). Mulheres e violências: interseccionalidades. Brasília: Technopolitik Editora, 2017. 14-35pp.

BARBOSA, Mônica Araújo. Movimentos de resistência à monogamia compulsória: a luta por direitos sexuais e afetivos no século XXI. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento e Gestão Social). Universidade Federal da Bahia: Salvador, 2011.

BARBOSA, Mônica Araújo. Poliamor e relações livres: do amor à militância contra a monogamia compulsória. Rio de Janeiro: Editora Multifoco – Luminária Academia, 2015.

BARBOSA, Mônica Araújo. Constelações íntimas: o afeto nas trajetórias não-monogâmicas. Tese (Doutorado em Sociologia). Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Porto Alegre, 2022.

BARONCELLI, Lauane. Amor e ciúme na contemporaneidade: reflexões psicossociológicas. In: Revista psicologia e sociedade; 23 (1); 163-170pp; 2011.

BOEHM, Camila. 2025. São Paulo registrou, em 2024, uma ameaça contra a mulher a cada cinco minutos. Agência Brasil. Texto disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-01/sp-registrou-em-2024-uma-ameaca-contra-mulher-cada-5-minutos Acesso em 19 de fevereiro de 2025.

BORNIA JR, Dardo Lorenzo. Views on jealousy from non-monogamous people lives experiences and emotionalities in Southern Brazil. In: 1St Non-Monogamies and Contemporary Intimacies Conference. Lisboa: 2015.

BORNIA JR, Dardo Lorenzo. Amar é verbo, não pronome possessivo: etnografia das relações não-monogâmicas no sul do Brasil. Tese (Doutorado em Antropologia Social). Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Porto Alegre, 2018.

BOZON, Michel. Sociologia da sexualidade. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), 2004.

CARDOSO, Daniel dos Santos. Amando vári@s: individualização, redes, ética e poliamor. Dissertação (Mestrado em Ciências da Comunicação). Universidade Nova de Lisboa: Lisboa, 2010.

CRENSHAW, Kimberlé. The urgency of intersectionality. 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=akOe5-UsQ2o&t=230 Acesso em 15 de outubro de 2018.

ENGELS, Friedrich. A origem da família, do Estado e da propriedade privada. São Paulo: Editora Boitempo, 2019.

FERNANDES, Rhuann. Negritude e não monogamia: as micropolíticas do amor. Rio de Janeiro: ÁFRICAS FAPERJ, 2022.

GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), 2011.

GONÇALVES, Ítalo Vinícius. Matemática dos afetos, dissensos e sentidos sociais acerca das noções de “monogamia” e “não-monogamia”. In: Revista Teoria e Cultura, v.16 n.3. Juiz de Fora: Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora, 2021.

GONÇALVES, Suelen Aires. “Vidas matáveis”: feminicídio de mulheres negras e interseccionalidades de gênero, raça e classe. Tese (Doutorado em Sociologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Porto Alegre, 2022.

GUIMARÃES, Fabrício Lemos; DINIZ, Gláucia Ribeiro Starling. Masculinidades, duplo vínculo e violência conjugal contra a mulher. In: STEVENS, Cristina et al (orgs.). Mulheres e violências: interseccionalidades. Brasília: Technopolitik Editora, 2017. 586-606pp.

G1 AMAZONAS. 2024. Corpo encontrado no AM é de artista venezuelana que viajava de bicicleta pelo Brasil, diz polícia. Texto disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2024/01/06/corpo-encontrado-no-am-e-de-artista-venezuelana-que-viajava-de-bicicleta-pelo-brasil-diz-policia.ghtml Acesso em: 10 de janeiro de 2024.

G1 AMAZONAS. 2024. Artista venezuelana foi vítima de roubo, agressões e abuso sexual antes de ser morta no AM, diz polícia. Texto disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2024/01/08/artista-venezuelana-foi-vitima-de-roubo-agressoes-e-abuso-sexual-antes-de-ser-morta-no-am-diz-policia.ghtml Acesso em: 10 de janeiro de 2024.

G1 AMAZONAS. 2024. Quem é a artista venezuelana morta no AM enquanto viajava de bicicleta pelo Brasil. Texto disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2024/01/08/julieta-hernandez-quem-e-a-artista-venezuelana-morta-no-am-enquanto-viajava-de-bicicleta-pelo-brasil.ghtml Acesso em 10 de janeiro de 2024.

HARITAWORN, Jin; LIN, Chin-ju; KLESSE, Christian. “Poly/logue. A critical introduction to polyamory. In: Sexualities, v.9, n.5, pp.515-529, 2006.

IANNUZZI, Fernanda Batalha; AZEVEDO, Thiago. Sujeitas de direito: interseccionalidades de mulheres venezuelanas imigrantes em Manaus frente à xenofobia e à violência de gênero. In: Revista Direito Público. Brasília, vol.20, n.108, pp.207-226, 2023.

INSTITUTO BRASILEIRO DE DIREITO DE FAMÍLIA (IBDFAM). 2023. Brasil bate recorde de feminicídio em 2022, aponta levantamento. Texto disponível em: https://ibdfam.org.br/noticias/10570/Brasil+bate+recorde+de+feminic%C3%ADdios+em+2022%2C+aponta+levantamento Acesso em 10 de janeiro de 2024.

INSTITUTO PATRÍCIA GALVÃO. 2016. Dossiê feminicídio. Texto disponível em: https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/feminicidio/capitulos/como-e-por-que-morrem-as-mulheres/ Acesso em 11 de janeiro de 2024.

KLESSE, Christian. Polyamory and its “others”: contesting the terms of non-monogamy. In: Sexualities, v.9, n.5, pp.565-583, 2006.

KOLLONTAI, Alexandra Mikhaylovna. A revolução socialista e as mulheres. São Paulo: Editora Lavrapalavra, 2021.

LAURETIS, Teresa de. A tecnologia de gênero. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org). Pensamentos feministas: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Editora Bazar do tempo, 2019.

MEDRADO, Andreone Teles; FERNANDES, Rhuann. Não monogamia: trânsitos entre raça, gênero e sexualidade. Rio de Janeiro: Editora Telha, 2023.

MOSCHKOVICH, Marília Bárbara. 2019. Poliamor: desvio liberal ou resistência à família burguesa. Texto disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2019/09/13/poliamor-desvio-liberal-ou-resistencia-a-familia-burguesa/ Acesso em 11 de novembro de 2021.

MOSCHKOVICH, Marília Bárbara. 2022. Para voltar a colocar em questão a monogamia. In: Revista Outras Palavras. Texto disponível em https://outraspalavras.net/feminismos/para-voltar-a-colocar-em-questao-a-monogamia/ Acesso em 25 de fevereiro de 2024.

MUNIZ, Diva do Couto Gontijo. As feridas abertas da violência contra as mulheres no Brasil: estupro, assassinato e feminicídio. In: STEVENS, Cristina et al (orgs.). Mulheres e violências: interseccionalidades. Brasília: Technopolitik Editora, 2017. 36-49pp.

NAÇÕES UNIDAS BRASIL. 2016. Organização das Nações Unidas: taxa de feminicídios no Brasil é quinta maior do mundo. Texto disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/72703-onu-taxa-de-feminic%C3%ADdios-no-brasil-%C3%A9-quinta-maior-do-mundo-diretrizes-nacionais-buscam Acesso em 10 de janeiro de 2024.

NÚÑEZ, Geni Daniela; OLIVEIRA, João Manuel de; LAGO, Mara Coelho de Souza. Monogamia e (anti)colonialidades: uma artesania narrativa indígena. In: Revista Teoria e Cultura, v.16 n.3. Juiz de Fora: Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora, 2021.

NÚÑEZ, Geni Daniela. Descolonizando afetos: experimentações sobre outras formas de amar. São Paulo: Editora Planeta, 2023.

PILÃO, Antonio Cerdeira. Poliamor: um estudo sobre conjugalidade, identidade e gênero. Dissertação (Mestrado em Sociologia e Antropologia). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012.

PILÃO, Antonio Cerdeira. “Por que somente um amor”? Um estudo sobre poliamor e relações não-monogâmicas no Brasil. Tese (Doutorado em Ciências Humanas). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2017.

PILÃO, Antonio Cerdeira. Quando o amor é o problema: feminismo e poliamor em debate. In: Revista Estudos Feministas, v.27, n.3. Florianópolis: Instituto de Estudos de Gênero da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 2019.

PILÃO, Antonio Cerdeira. Ativismos não-monogâmicos no Brasil contemporâneo: a controvérsia poliamor e relações livres. In: Sexualidad, Salud y Sociedad – revista latino-americana da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), n.38, 2022.

PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. 2019. Entre América e Abya Yala. Chakaruna: Abya Yala sem fronteiras. 2009. In: Abya Yala. Projeto povos originários. IELA - Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina. Texto disponível em https://iela.ufsc.br/projeto/povos-originarios/abya-yala/ Acesso em 31 de janeiro de 2024.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas Latino Americanas. Buenos Aires: Editora CLACSO, 2005.

RIBAS, Ana Cláudia. A insustentável leveza da liberdade: um breve olhar sobre os discursos referentes ao amor livre nas publicações anarquistas do século XX. In: I Seminário Internacional História do Tempo Presente. Florianópolis: UDESC, 2011.

SENADO FEDERAL. 2015. Ciúme e álcool estimulam violência contra a mulher. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2015/09/08/ciume-e-alcool-estimulam-violencia-contra-a-mulher-revela-pesquisa-do-datasenado Acesso em 15 de janeiro de 2024.

SENADO FEDERAL, 2023. Lei Maria da Penha. Senado notícias. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/entenda-o-assunto/lei-maria-da-penha Acesso em 30 de janeiro de 2024.

SILVERIO, Maria Silva e. Swing. Eu, tu... Eles. Lisboa: Chiado Editora, 2014.

SILVERIO, Maria Silva e. Eu, tu... ilus: poliamor e não-monogamias consensuais. 2018. Tese (Doutorado em Antropologia). Lisboa: Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), 2018.

ZANELLO, Valeska Maria. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Editora Appris, 2020.

ZANELLO, Valeska Maria. A prateleira do amor: sobre mulheres, homens e relações. Curitiba: Editora Appris, 2022.

Downloads

Publicado

2025-04-28 — Atualizado em 2025-04-29

Como Citar

BORNIA JUNIOR, Dardo Lorenzo. A monogamia mata mulheres: reflexões a partir do caso de Julieta Hernández. Sæculum - Revista de História, [S. l.], v. 29, n. 51, p. 67–82, 2025. DOI: 10.22478/ufpb.2317-6725.2024v30n51.73045. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/srh/article/view/73045. Acesso em: 4 jun. 2026.

Edição

Seção

Dossiê - Violências de Gênero: interseccionalidade, sexualidade e justiça

Artigos Semelhantes

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 > >> 

Você também pode iniciar uma pesquisa avançada por similaridade para este artigo.