História & Universidade

Autores

  • Margarida Maria Dias de Oliveira UFRN
  • Itamar Freitas de Oliveira Universidade Federal de Sergipe

DOI:

https://doi.org/10.22478/ufpb.2317-6725.2025v30n52.76275

Palavras-chave:

História, Universidade, História do Ensino de História

Resumo

Na díade que orienta este dossiê, História e Universidade, cabe o ensino de História? Ou, dito de outra forma, ensino de História está presente quando refletimos sobre a Universidade ou continuamos a problematizar a idealizada progressão epistemológica do campo, protagonizada pelas missões estrangeiras na instituição universitária, frente à experiência centenária dos institutos históricos locais e brasileiro?

Foi exatamente essa segunda tendência que quisemos contrapor com a proposição deste dossiê. Quisemos contribuir para compreender as inflexões que se delineiam na escrita da história sobre os cursos universitários e, neles, com prioridade para os cursos de graduação em História. No convite, queríamos reafirmar a necessidade de ultrapassar visões dicotômicas sobre os cursos universitários de História, especialmente aquelas que os classificam de forma reducionista, como inovadores ou tradicionais.

Tal enquadramento simplifica processos formativos complexos e ignora a multiplicidade de fatores que configuram os cursos, desde as condições institucionais e políticas até as trajetórias individuais de professores e estudantes. A exemplo do que fizemos em outras ocasiões (ALVES JR., 2021; OLIVEIRA; FREITAS, 2022), pretendíamos, nesse sentido, incentivar a pluralização da narrativa sobre o ensino de História, não apenas pela enumeração de experiências, mas por meio da sistematização rigorosa de informações, da interpretação crítica de dados e da análise aprofundada de fontes que evidenciem a diversidade das práticas formativas em diferentes universidades, regiões e contextos sociais. Pluralizar significava abrir espaço para reconhecer o caráter multifacetado da experiência universitária e considerar como legítimas formas variadas de organizar currículos, planejar disciplinas, estruturar estágios ou realizar projetos de extensão e pesquisa.

Se, por um lado, inicia-se uma crítica à homogeneização da narrativa sobre o ensino de História – narrativa que aproxima a educação básica e o ensino universitário sob uma mesma lógica de uniformidade -, por outro lado, observa-se que a formação dos profissionais da área tem sido frequentemente limitada a parâmetros bastante restritos. Esses parâmetros são, em grande medida, derivados de uma cronologia que se inicia com a fundação da Universidade de São Paulo e com a criação de sua Faculdade de Filosofia, marco que se tornou referência quase exclusiva para narrativas sobre o ensino superior de História no Brasil.

Esse modelo de leitura, assentado em uma ideia de evolução linear e contínua dos cursos, tende a projetar o presente como se fosse o único futuro possível, naturalizando escolhas institucionais e apagando alternativas que existiram ou que poderiam ter existido. Ao privilegiar essa matriz interpretativa, corremos o risco de reduzir a complexidade histórica a uma narrativa única, que desconsidera experiências de universidades regionais, faculdades isoladas, cursos vinculados a movimentos sociais ou mesmo iniciativas populares de formação superior.

Nesse horizonte, quando propusemos este dossiê, alimentávamos o desejo de ampliar o repertório de interpretações, identificando, nas publicações em revistas de História, sinais de um movimento que ora confirma, ora tensiona tal tradição narrativa. Nos últimos cinco anos, os artigos que tratam do ensino superior de História nessas revistas têm se concentrado majoritariamente em práticas pedagógicas e relatos de experiência, voltados tanto para a sala de aula quanto para atividades complementares. Nesse conjunto, encontram-se estudos sobre monitoria em História Medieval (AGUIAR; CABREIRA, 2022), práticas extensionistas nos cursos de História (BARBOZA; MARIZ, 2021), intervenções didáticas com jogos digitais no campo das humanidades (NABAIS; TRINDADE, 2024), experiências em laboratórios de ensino (ALMEIDA, 2020) e reflexões sobre o ensino de História e culturas indígenas (ASSUMPÇÃO et al., 2024). Também se incluem análises sobre a prática do ensino de Teoria da História (MENDES; ARRAIS; BERBERT JÚNIOR, 2023; SILVA; RANGEL, 2023), discussões a respeito das relações entre ensino e currículo (VIANNA; CUNHA; SILVA, 2021) e o exame de questões de gênero vinculadas às práticas docentes (MIRANDA, 2023). Em outras frentes, há ainda registros sobre a percepção do uso de repositórios digitais (BRASIL; VALVERDE; VELOSO, 2024) e relatos de atividades de ensino em diferentes contextos formativos (DOMINGUES; MATOS, 2023; ASSUMPÇÃO; SANTANA; OLIVEIRA, 2024). A tônica dessas contribuições recai sobre a aplicação pedagógica imediata e sobre a experimentação metodológica, posicionando o professor universitário como agente de inovação didática e narrador de sua própria prática. Assim, os textos acabam funcionando mais como registros de estratégias e intervenções do presente do que como análises histórico-críticas da constituição do ensino superior de História.

Nesse mesmo levantamento que fizemos em agosto deste ano de 2025, constatamos que um número menor de trabalhos se dedica a elaborar a história do ensino superior de História, concebendo-o não apenas como espaço de formação profissional, mas também como objeto de memória e de reflexão crítica. Entre eles, destacam-se o estudo sobre a trajetória da disciplina de História Antiga (SILVA, 2020), a análise das práticas de ensino em recorte de gênero (MIRANDA, 2023), a investigação sobre o engajamento político dos docentes na fundação da Associação Nacional de História (ANPUH) (SANTOS, 2024) e a pesquisa acerca do I Simpósio de Professores de História do Ensino Superior (NASCIMENTO, 2017). Esses textos assumem uma perspectiva historiográfica que busca compreender a institucionalização da disciplina, suas tensões políticas e seus marcos organizativos.

Essa mesma tendência à pluralização das narrativas sobre o binômio Ensino de História e Universidade vocês encontrarão neste dossiê. Aqui, acolhemos trabalhos que exploram práticas de ensino dentro, fora e no trânsito entre a universidade e a vida prática não acadêmica. Os tons e a densidade de pluralização temática, epistemológica e ideológica, contudo, são diferentes.

Em “O tempo histórico como categoria central na construção do conhecimento histórico: experiência prática e reflexão docente na graduação em História”, Vítor Mateus Viebrantz demonstra interações entre o campo da História e o campo da Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem, assim como os deslocamentos de foco, desde a Universidade até a escola básica, no Estado do Rio Grande do Sul, em 2017.

No texto “Manuais, disciplinas e historiografia: o caso da introdução ao estudo da história (IEH) de João Wilson Mendes Melo”, de Matheus Oliveira da Silva, explicita as divergências ideológicas entre universidades, no que diz respeito aos programas de disciplinas propedêuticas, enquanto mantêm um corpo comum de princípios epistemológicos, herdados de experiências europeias. Também demonstra que as iniciativas de didatização do ensino superior de História, entre as décadas de 1980 e 1990, ocorriam em diferentes pontos do país, condicionada por políticas internas, no caso, à Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Já o trabalho intitulado “‘Os professores de luvas brancas’: marginálias do passado da historiografia uspiana” difunde a crítica ao discurso de inovação historiográfica à francesa, produzido por alguns professores formados nas duas primeiras turmas de licenciatura em História na Universidade de São Paulo. Usando o testemunho de Carlos Guilherme Mota, Diego José Fernandes Freire declara que os docentes da missão francesa que aportou em São Paulo, nos anos 1930, estavam em início de carreira e seguiam os rudimentos do método da chamada escola metódica francesa. Assim, não poderiam fundamentar a ideia de que o curso de História da Universidade de São Paulo (USP) era o representante da primeira geração dos Annales no Brasil. O texto é exemplo de contramemória dessacralizadora da posição de elite representante da oligarquia paulista e repõe à cena alguns nomes nacionais subvalorizados, como Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e José Honório Rodrigues.

Em trabalho analítico, Bruno Costa relata uma iniciativa reformista de narrar a experiência historiográfica do Rio Grande do Norte, levada a cabo pela professora Denise Matos Monteiro, por meio do “balanço historiográfico”, produzido na década de 1990 e reapresentado no decênio seguinte. Em diálogo com as orientações teóricas de José Roberto do Amaral Lapa, a autora periodiza a história local com base na ideia contestável de que a experiência do século XIX, como também aquela ligada ao Instituto Histórico do Rio Grande do Norte, pouco contribuíram no sentido de uma abstrata inovação, reservada esta aos frutos da Universidade, especificamente, aos pós-graduados professores do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Na análise do “balanço”, contudo, Bruno Costa revela certa ambiguidade em relação ao valor dessa hipótese, ao registrar o seu desdobramento: a exclusão da produção dos professores da escolarização básica.

Por fim, o texto “O positivismo no retrovisor das teorias do ensino de História”, escrito por Tiago Benfica e Eudes Leite, apresentam uma crítica aos critérios de julgamento ideológico e epistemológico dos intelectuais formadores de opinião em termos de história e historiografia do ensino de História, no interior das universidades, principalmente entre os anos 1990 e 2000. Como retrata o título, o autor detalha a impropriedade do rótulo, comparando o dito sobre textos de A. Comte e o feito pelo filósofo francês, emergentes nos termos pejorativos de “positivismo” e “positivista”. A crítica é pertinente, mas é tímida em relação ao que representaram as coleções analisadas. O artigo revela a incúria dos profissionais universitários que adotaram os valores (desvalores) desferidos à obra de Comte e dos neocomtianos, sem fazer o dever de casa positivista, ou seja, sem fazer a crítica da informação e do conhecimento que lhe chegavam aos olhos e ouvidos sobre a epistemologia e a ideologia do positivismo cientificista no trabalho do profissional de História.

Ao reunirmos estudos que atravessam instituições, décadas e matrizes teóricas, procuramos deslocar a narrativa confortável – e empobrecedora – que identifica a história do ensino universitário de História a uma linha literalmente evolutiva única. Os artigos aqui congregados mostram que, quando voltamos o foco às práticas, às escolhas curriculares, às disputas institucionais e às memórias concorrentes, a paisagem se torna mais densa: não há um roteiro inevitável, mas tramas plurais, simultâneas e por vezes inconciliáveis.

Em comum, as contribuições recusam o simplismo da dicotomia “tradicional vs. inovador” e preferem rastrear arranjos concretos: manuais que normatizam um saber-fazer, disciplinas propedêuticas que preservam modelos mesmo em contextos de mudança, contramemórias que dessacralizam mitos de origem e balanços historiográficos que, ao periodizar, também instituem esquecimentos.

Se este dossiê tensiona um cânone teleológico, ele também aponta tarefas positivas. Primeiro, consolidar um programa de pesquisa sobre o ensino superior de História que articule: (a) cartografias curriculares e seus regimes de justificativa; (b) arquivos do cotidiano universitário (planos, programas, pareceres, relatórios, editoras e coleções acadêmicas); (c) memórias e contramemórias (entrevistas, testemunhos, marginálias) que evidenciem disputas de prestígio e autoridade; (d) circulação de saberes entre graduação, pós-graduação, extensão e escola básica; e (e) comparações regionais que desloquem o eixo interpretativo para além dos grandes centros. Em segundo lugar, este dossiê estimula o cumprimento de uma agenda de pesqusia que fortaleça a crítica documental aplicada ao próprio campo: tomar manuais, dossiês, balanços e relatos como fontes que performam posições teóricas e políticas, e não apenas como espelhos “neutros” de épocas.

Boa leitura!

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

AGUIAR, Veronica Aparecida Silveira; CABREIRA, Vanessa Israel. Ensino de História Medieval e a monitoria acadêmica na Universidade Federal de Rondônia. Jamaxi, [S. l.], v. 6, n. 1, 2022. Disponível em: https://periodicos.ufac.br/index.php/jamaxi/article/view/5598. Acesso em: 6 set. 2025.

ALEXANDRINA SILVA, Roberta. Considerações sobre a implantação da pesquisa e ensino de História Antiga no campus universitário de Bragança, na Amazônia Oriental. Antíteses, Londrina, v. 13, n. 26, p. 424–445, 2020. DOI: https://doi.org/10.5433/1984-3356.2020v13n26p424. Acesso em: 30 ago. 2025.

ALMEIDA, A. de. A formação docente em laboratórios universitários de ensino de História através da produção de materiais didáticos: a experiência do LEHRB-UFRB. Escritas do Tempo, [S. l.], v. 2, n. 6, p. 118–148, 2020. DOI: https://doi.org/10.47694/issn.2674-7758.v2.i6.2020.p118-148. Acesso em: 30 ago. 2025.

ALVES JUNIOR, Alexandre Guilherme; OLIVEIRA, Margarida Maria Dias de; SANTOS, Fábio Alves; FREITAS, Itamar. História do ensino de História: desafios para uma nova escrita de síntese. História Hoje. São Paulo, v. 10, p. 294-312, 2021. Disponível em: https://rhhj.anpuh.org/RHHJ/article/view/606. Acesso em 1 set. 2025.

ASSUMPÇÃO, J. L. da; PAIM, E. A.; SANTANA, G.; OLIVEIRA, S.-L. R. C. Oralituras indígenas e o ensino de História: uma experiência no ensino superior. Revista História Hoje, [S. l.], v. 13, n. 29, 2024. DOI: https://doi.org/10.20949/rhhj.v13i29.1178. Acesso em: 30 ago. 2025.

BARBOZA, Edson Holanda Lima; MARIZ, Silviana Fernandes. Extensão universitária, formação de professores e ensino de História no Brasil: abordagens, legislação e desafios. Revista Vozes, [S. l.], v. 12, n. 2, p. 192-212, 2021. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/vozes/article/view/56861. Acesso em: 14 abr. 2025.

BRASIL, Eric; VALVERDE, Priscila; VELOSO, Ana Carolina. Desafios e expectativas da prática da História na era digital: percepções de docentes de História nas instituições de ensino superior na Bahia. Boletim do Tempo Presente, [S. l.], v. 13, n. 2, p. 140–165, 2024. Acesso em: 30 ago. 2025.

DE ARAÚJO MIRANDA, A. R. Práxis histórico-didática: histórias de vida docente de professoras da área de Ensino de História da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Tempos Históricos, Marechal Cândido Rondon, v. 27, n. 2, p. 155–184, 2023. DOI: https://doi.org/10.36449/rth.v27i2.31397. Acesso em: 30 ago. 2025.

DOMINGUES, D.; MATOS, J. S. O que é História para alunos universitários? diálogos entre o ensino de História e a formação superior. Revista Aedos, Porto Alegre, v. 15, n. 34, 2023. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/aedos/article/view/128324. Acesso em: 6 set. 2025.

GRUNER, C.; MENDONÇA, J. N. Ensino de História e História Pública: refletindo sobre experiências passadas e contemporâneas nos cursos de História da Universidade Federal do Paraná. Revista História Hoje, [S. l.], v. 11, n. 22, p. 293–308, 2022. DOI: https://doi.org/10.20949/rhhj.v11i22.901. Acesso em: 30 ago. 2025.

MENDES, Breno; ARRAIS, Cristiano Alencar; BERBERT JÚNIOR, Carlos Oiti. O lugar da teoria da história na formação de historiadores e historiadoras no ensino superior. Varia Historia, Belo Horizonte, v. 39, n. 79, p. 193–222, jan./abr. 2023. DOI: https://doi.org/10.1590/0104-87752023v39n79-09. Acesso em: 30 ago. 2025.

MONTEZUMA DOS SANTOS, Juan Michel. A fundação da ANPUH: o lugar político dos historiadores acadêmicos na Reforma do Ensino Superior (1961–1965). Intellèctus, [S. l.], v. 23, n. 2, p. 292–310, 2024. DOI: https://doi.org/10.12957/intellectus.2024.84323. Acesso em: 30 ago. 2025.

NABAIS, F. M. D.; TRINDADE, S. M. da G. D. do C. As potencialidades pedagógicas do videogame Assassin’s Creed Origins na graduação em História: um estudo de caso no ensino superior português. Convergências: Estudos em Humanidades Digitais, [S. l.], v. 1, n. 1, 2024.

NASCIMENTO, Thiago Rodrigues. O primeiro Simpósio de Professores de História do Ensino Superior (1961): currículo e formação de professores. Cadernos de História da Educação, Uberlândia, v. 16, n. 1, p. 286–304, 2017. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/che/article/view/38918. Acesso em: 6 set. 2025.

OLIVEIRA, Margarida Maria Dias de; FREITAS, Itamar. Sínteses historiográficas e ensino de história. In: ProfHISTÓRIA: o dito e o feito. Ananindeua: Cabana, 2022. p.96-129. Disponível em: https://www.academia.edu/93198463/Profhist%C3%B3ria_o_dito_e_feito_2022. Acesso em: 6 set. 2025.

SILVA, Daniel Pinha; RANGEL, Marcelo de Mello. Teoria da história, ensino de história e universidade: diálogos e perspectivas. Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 32, p. 7–15, 2023. DOI: https://doi.org/10.12957/revmar.2023.76518. Acesso em: 30 ago. 2025.

VIANNA, D. H.; CUNHA, A. V. C. S. da; SILVA, F. D. de O. Refração e currículo como narrativa na educação básica e no ensino superior. Palavras ABEHrtas, [S. l.], n. 4, 2021. Disponível em: https://www.palavrasabehrtas.abeh.org.br/index.php/palavrasABEHrtas/article/view/75. Acesso em: 6 set. 2025.

Downloads

Publicado

2025-10-06

Como Citar

DE OLIVEIRA, Margarida Maria Dias; OLIVEIRA, Itamar Freitas de. História & Universidade. Sæculum - Revista de História, [S. l.], v. 30, n. 52, p. 43–48, 2025. DOI: 10.22478/ufpb.2317-6725.2025v30n52.76275. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/srh/article/view/76275. Acesso em: 4 jun. 2026.

Edição

Seção

Dossiê - História e Universidade

Artigos Semelhantes

<< < 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 > >> 

Você também pode iniciar uma pesquisa avançada por similaridade para este artigo.