Vozes da Inquisição:
pregação, antijudaísmo e cultura política nos autos da fé do Santo Ofício português (1605–1673)
DOI:
https://doi.org/10.22478/ufpb.2317-6725.2026v31.77314Palavras-chave:
Santo Ofício. Antijudaísmo. Sermões. Autos da fé. Império português.Resumo
O artigo analisa a parenética inquisitorial em Portugal seiscentista, tomando como eixo os sermões pregados nos autos da fé entre 1605 e 1673, em especial o de frei Luís da Silva em Lisboa, para compreender como o antijudaísmo estruturou o discurso e a legitimidade do Santo Ofício. A partir da leitura de sermões impressos, constituições diocesanas, manuais de pregação e regimentos inquisitoriais, o texto mobiliza referencial da história religiosa e social para situar o pregador no campo eclesiástico e nas disputas por prestígio, controle moral e produção de “imagens coletivas” sobre os desviantes. Mostra-se como o Concílio de Trento redefiniu o lugar da pregação, submetida a rígidas normas episcopais quanto à formação, licenças, conteúdos e modos de dizer, ao mesmo tempo em que ordens religiosas e Inquisição fizeram dos sermões um instrumento de doutrinação em larga escala. Nos autos da fé, esse dispositivo assume forma extrema. O púlpito inquisitorial produz e difunde uma figura monolítica do “judeu”, associada a rebeldia, mentira, perversidade de sangue e conluio contra a fé e o reino, deslocando críticas aos cristãos-novos e ao Tribunal para o terreno da heresia e da luta entre Cristo e Satanás. O estudo demonstra que o antijudaísmo não é mero eco de preconceitos difusos, mas peça central na legitimação da Inquisição, na gestão do medo, na economia simbólica da honra e na naturalização de hierarquias sociais entendidas como imutáveis. Ao “ouvir” a voz dos pregadores, o artigo dialoga com pesquisas recentes sobre as dimensões político-jurídicas e culturais dos impérios ibéricos, evidenciando a íntima articulação entre teologia, governo e produção de ordem social no Portugal e no seu império ultramarino ibérico.
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