A TAREFA INFINITA DO TRADUTOR DE POESIA

INTRADUZIBILIDADE, ALTERIDADE E AUTORIA

Autores

DOI:

https://doi.org/10.22478/ufpb.1516-1536.2025v27n3.77128

Palavras-chave:

tradução poética , intraduzibilidade, transcriação, autoria, alteridade

Resumo

Este artigo propõe uma reflexão sobre a tradução poética como prática de criação estética e política da diferença, a partir das noções de intraduzibilidade (Cassin) e transcriação (Haroldo de Campos). Partindo do pensamento de Walter Benjamin, segundo o qual “a tradução é uma forma” que expressa a “sobrevivência” da obra, discuto como a tradução de poesia ultrapassa o paradigma da fidelidade e se inscreve como gesto de autoria, ética da alteridade e espaço de resistência ao monolinguismo. Dialogando com Benjamin, Derrida, Cassin, Jakobson e com poetas-tradutores brasileiros, o texto examina casos paradigmáticos – Rubáiyát (Omar Khayyám), Cathay (Ezra Pound), Um garoto de Haifa gira a palavra (Najwan Darwish) e Roça Barroca (Josely Vianna Baptista) – para demonstrar como a tradução poética se converte em lugar de sobrevida e recriação. Busco evidenciar, ainda, que traduzir poesia é instaurar uma relação com o outro que transforma tanto o texto traduzido quanto a língua de chegada, em um processo de hospitalidade e invenção. O artigo conclui que traduzir poesia é um modo de pensar e de habitar o mundo: uma prática que acolhe o outro, complica o universal e revela, na fricção entre as línguas e nos espaços do intraduzível, a força criadora e ética da tradução.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

APTER, Emily. Against World Literature: on the politics of untranslatability. New York: Verso, 2013.

ASCHER, Nelson. O texto e sua sombra: teses sobre a teoria da intradução. Revista 34 Letras, São Paulo, v. 3, n. 34, p. 142-157, 1989.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor, de Walter Benjamin: quatro traduções para o português. Tradução de Fernando Camacho et al. Belo Horizonte: Fale UFMG, 2008.

BERMAN, Antoine. L'épreuve de l'étranger: culture et traduction dans l'Allemagne romantique. Paris: Éditions du Seuil, 1984.

BERMAN, Antoine. The experience of the foreign: culture and translation in Romantic Germany. Trad. Stefan Heyvaert. New York: State University of New York Press, 1992.

CAMPOS, Augusto. Verso reverso controverso. São Paulo: Perspectiva, 1978.

CAMPOS, Augusto. Intraduções. São Paulo, 1993. Disponível em: https://www.augustodecampos.com.br/intraducoes.html. Acesso em: 9 nov. 2025.

CAMPOS, Haroldo de. Da tradução como criação e como crítica. São Paulo: Perspectiva, 1993.

CAMPOS, Haroldo de. Transcriação. Org. Marcelo Tápia; Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Perspectiva, 2013.

CASSIN, Barbara. Elogio da tradução: complicar o universal. Tradução de Daniel Falkemback; Simone Petry. São Paulo: Martins Fontes, 2022.

CELAN, Paul. Arte poética: o meridiano e outros textos. Tradução de João Barrento; Vanessa Milheiro. Lisboa: Cotovia, 1996.

DAMROSCH, David. How to read world literature. 2. ed. London: Wiley-Blackwell, 2017.

DARWISH, Najwan. Um garoto de Haifa gira a palavra e outros poemas palestinos. Tradução de Thiago Ponce de Moraes. Cotia: Urutau, 2024.

DERRIDA, Jacques. Torres de Babel. Tradução de Junia Barreto. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

DIEGUES, Douglas. [Entrevista]. Revista Pessoa, São Paulo, 2016. Disponível em: https://www.revistapessoa.com. Acesso em: 8 nov. 2025.

DIEGUES, Douglas. Manifesto do portunhol selvagem. In: DIEGUES, Douglas. Portunhol selvagem. [S. l.], 2006. Disponível em: http://portunholselvagem.blogspot.com. Acesso em: 8 nov. 2025.

FLORES, Guilherme Gontijo. Seu dedo é flor de lótus: poemas de amor do Egito Antigo. São Paulo: Editora 34, 2023.

GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo 2022: Brasil tem 391 etnias e 295 línguas indígenas. Agência de Notícias IBGE, Rio de Janeiro, 24 out. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44848-censo-2022-brasil-tem-391-etnias-e-295-linguas-indigenas. Acesso em: 9 dez. 2025.

JAKOBSON, Roman. Aspectos linguísticos da tradução. In: JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. Tradução de Izidoro Blikstein; José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1969. p. 63-72.

KHAYYÁM, Omar. Rubáiyát: memória de Omar Khayyám. Tradução de Luiz Antônio de Figueiredo. São Paulo: Editora Unesp, 2012.

MALLARMÉ, Stéphane. Mallarmé. Org. Trad. Augusto de Campos; Décio Pignatari; Haroldo de Campos. São Paulo: Perspectiva, 1991.

MAYAKÓVSKI, Vladimir. An amazing adventure of Vladimir Mayakóvski. Samara, 2009. Disponível em: https://perevod99.blogspot.com/2009/02/blog-post_03.html. Acesso em: 9 nov. 2025.

NUNES, Benedito. O dorso do tigre: ensaios. São Paulo: Perspectiva, 1989.

POUND, Ezra. Cathay: the centennial edition. New York: New Directions Books, 2015.

SAUSSY, Haun. Translation as citation: Zhuangzi inside out. Oxford: Oxford University Press, 2018.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Passagem para o outro como tarefa: tradução, testemunho e pós-colonialidade. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2022.

VENUTI, Lawrence. Contra instrumentalism: a translation polemic. Lincoln: University of Nebraska Press, 2019.

VIANNA BAPTISTA, Josely. Roça barroca. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

Downloads

Publicado

09.07.2026

Como Citar

PONCE DE MORAES, Thiago. A TAREFA INFINITA DO TRADUTOR DE POESIA: INTRADUZIBILIDADE, ALTERIDADE E AUTORIA. Revista Graphos, [S. l.], v. 27, n. 3, p. 32–58, 2026. DOI: 10.22478/ufpb.1516-1536.2025v27n3.77128. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/graphos/article/view/77128. Acesso em: 14 jul. 2026.

Artigos Semelhantes

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 > >> 

Você também pode iniciar uma pesquisa avançada por similaridade para este artigo.